"Hoje começamos a ter uma perspetiva futura"



Tiago Lenho, em entrevista ao programa 'Estúdio 1924' da Gil Vicente TV, conduzida por Miguel Sá Pereira, diretor de comunicação dos minhotos, abordou, entre outros temas, o momento do clube e a estabilização que este pretende levar a cabo no primeiro escalão. Por outro lado, falou-se ainda do futebol português e da importância da centralização dos direitos televisivos. Fica, aqui, um excerto da entrevista:


- "O mister Rui Almeida iniciou o projeto, depois o teu reencontro com o mister Ricardo Soares, que tinha sido teu treinador. Já o tinhas referenciado? Foi importante conheceres as características do mister para depois voltares a convidá-lo para cá?"


"Sim. Obviamente é importante nós conhecermos as pessoas, ainda para mais quando temos uma ideia positiva sobre elas. Acho que torna mais fácil estarmos mais perto de trabalhar novamente em conjunto. Claro que isso foi importante, mas mais importante que isso é a competência que também lhe é reconhecida e que nós lhe reconhecemos. Veio a comprovar isso e esta época as coisas continuam a correr nesse sentido. A vida de treinador não é fácil, é uma vida de muita instabilidade, tem vindo a sê-lo no futebol português, mas creio que o Gil Vicente também proporciona todas as condições para que os treinadores exerçam as suas funções com o maior sucesso possível. O reencontro foi positivo, as coisas correram bem. Portanto, até ao momento, tudo aspetos positivos a retirar deste reencontro."


- "Em 2019/2020 foi concretizada, no fundo, a reintegração – o Galo finalmente voltou à primeira liga. Depois, no ano a seguir, o Gil Vicente dá uma grande resposta do ponto de vista da afirmação de que quer estar cá [primeira liga] muitos anos. E esta temporada o clube continua a honrar a sua história. Para já, com bons resultados no campeonato da primeira liga, mas, se calhar, com um tipo de gestão diferente. Hoje o GV já consegue segurar os seus ativos, hoje o GV já é um clube vendedor, recordo-me de ter falado contigo isso já há muito tempo. Isso seria também um grande objetivo que o clube tinha no futuro?"


"Sim. Era um processo natural, mas as coisas não acontecem de um dia para o outro. É verdade que, quer no final da 1ª época, quer no final da 2ª época de primeira liga – desde que regressamos à mesma – o GV acaba por passar por uma reestruturação grande fruto, um bocadinho, ainda desse regresso. Fomos obrigados a fazer contratos mais curtos para não expor em demasia o clube, porque realmente o risco no 1º e no 2º ano era muito maior. O risco continua sempre a existir – temos de ser cuidadosos nas análises que fazemos – mas a confiança das pessoas também vai crescendo conforme o clube se vai estabilizando. E hoje, sim, começamos a ter uma perspetiva futura, diferente, em que os jogadores têm contratos mais longos, em que realmente começamos a realizar uma ou outra venda que são importantes para a saúde financeira do clube. O caminho tem que continuar a ser este, nunca perdendo o foco daquilo que é essencial, que é a parte desportiva. E na parte desportiva, o GV tem de continuar a cumprir os seus objetivos e isso é que é primordial, porque isso é que vai ser a base de tudo o resto."


- "Esta temporada que avaliação é que fazes, como é que estás a ver o comportamento da equipa e que perspetivas tens para este ano?"


"Houve novamente uma reformulação bastante grande, cerca de metade do plantel é novo no clube. Muitos deles ou grande parte são novos no país, novos na liga, era normal e a perspetiva era que, na fase inicial, houvesse mais dificuldade, por tudo ser novo para grande parte deles. Pela adaptação ao futebol português, pelo conhecimento ao futebol português que para grande parte não existia. E é normal ter algumas dores de crescimento na fase inicial da época. Felizmente, decorrido um terço do campeonato, a equipa evoluiu de uma forma bastante positiva e até algo surpreendente, fruto do trabalho dos jogadores, fruto do trabalho da equipa técnica, fruto do trabalho de todos os que estão envolvidos no processo e que fazem com que os jogadores e a equipa técnica tenham todos os meios para que consigam trabalhar na plenitude. Até ao momento estamos satisfeitos com a classificação que ocupamos, no entanto temos de ter a ambição de fazer mais e melhor, nunca perdendo o foco daquilo que é importante para o clube. O objetivo principal do clube é a manutenção, porque o clube tem de continuar a estabilizar-se na primeira liga. Tudo o que vier acima disso será proveito. Mas dentro tem de existir uma ambição de querermos fazer mais e melhor, sem nunca nos pormos em bico dos pés porque normalmente isso nunca dá grande resultado. É importante nós percebermos que o GV é um clube que regressou há 3 anos à primeira liga. Está a dar os passos que tem de dar na mesma, sustentados, e não pode aqui estar a pensar em coisas muito maiores neste momento. O objetivo passa por garantir a manutenção, o mais cedo possível de preferência."


- "O GV acabou à última hora por desistir do campeonato sub-23 fruto, se calhar, de uma situação que tem de ser resolvida, que é a questão das infraestruturas. É por aí que o futuro tem de passar? A concretização da 2ª fase do estádio é importante para que o clube dê um impulso também qualitativo?"


"Não diria importante, mas vital. O GV está na primeira liga e precisa de criar condições ao nível de primeira liga. Neste momento não temos, é a realidade. A questão dos sub-23 foi muito por aí que acabou por não avançar, porque se queremos iniciar um projeto com profissionalismo temos de ter as condições para o fazer, e não tínhamos. Volto a reiterar: o clube dentro das condições que tem faz um ótimo trabalho, a formação do clube dentro das condições que tem faz um ótimo trabalho, mas a construção desses campos acaba por ser vital. Porque se já comparado com alguns clubes em nosso redor estamos atrás deles a nível de infraestruturas, e isso faz-nos perder bastante, se não fizermos nada para reverter isso, essa perda, essa décalage para os outros vai ser cada vez maior. Portanto, é por aí que temos de investir, é por aí que temos de olhar. Muito pensando, até, no processo de formação de atletas, que neste momento no GV trabalha-se muito bem para as condições que tem."


- "Olhando para o futebol português. Qual é o teu posicionamento sobre a nossa liga, sobre a competitividade da liga?"


"Eu creio que hoje estamos melhores que nos anos anteriores. Eu penso que esta época as equipas têm apresentado um nível qualitativo maior, muito fruto do trabalho que os treinadores vêm fazendo em Portugal. Penso que se está a trabalhar cada vez melhor. Não é à toa que os portugueses, quer jogadores, treinadores, e agora também alguns dirigentes, têm sucesso no exterior, porque se trabalha realmente muito bem. De qualquer forma, considero que esta época houve um acréscimo de qualidade de jogo no nosso campeonato. Os jogos têm se tornado mais agradáveis de ver do que se calhar há 2 anos atrás ou 3 anos atrás. Fruto muito do trabalho dos treinadores, fruto da estrutura dos clubes que são cada vez mais profissionais, fruto também, obviamente, da qualidade dos jogadores."


- "Embora às vezes haja um bocadinho de ruido a mais, concordas que se deveria valorizar mais o talento do futebol português – o jogador, o treinador?"


"De há muitos anos a esta parte que acontece esse ruido à volta do futebol português. Muito clima de suspeição aqui e acolá. Eu penso que se perde demasiado tempo a falar nisso quando se devia perder muito mais tempo a valorizar aquilo que estou a dizer, porque não é uma opinião só minha, tenho a certeza disso, tenho a certeza de que quem acompanha o futebol português vai também reconhecer aquilo que estou a dizer. E é isto que nós temos de valorizar – é uma liga cada vez melhor, são os estádios cada vez melhores, os relvados cada vez melhores, as condições cada vez melhores, os clubes muito mais profissionais e a liga muito mais profissional. Portanto, nós temos vindo a crescer no futebol. Felizmente há agora uma perspetiva de uma centralização dos direitos televisivos que vai tornar as coisas ainda melhores. Temos que olhar pela parte positiva e a verdade é que o futebol português tem tido um crescimento muito grande nos últimos anos."


- "A centralização dos direitos vai encurtar distâncias, digamos assim?"


"Acredito que sim. Pelo menos os clubes vão ter capacidade para elevar ainda mais o nível. Vai nos permitir sermos competitivos com campeonatos que neste momento não somos. Ao nível da contratação de jogadores, se calhar há mercados que hoje em dia é impossível olhar para eles ou não vale a pena, porque não temos capacidade financeira para lá chegar, mas que com a centralização dos direitos televisivos isso já vai ser possível. Já vamos poder alargar o leque dos campeonatos que nós olhamos para tentar contratar, e isso vai nos permitir trazer mais qualidade a todos os níveis. Não falo só de jogadores, falo de recursos humanos, falo de tudo. Os clubes vão ter mais capacidade para investir nos seus quadros, nas suas infraestruturas. Vai-nos tornar melhores, não tenho absolutamente dúvida nenhuma sobre isso."


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Desde já, é de saudar a iniciativa do Gil Vicente em dar palco ao seu diretor desportivo. Ainda que não tenham sido explorados alguns dos temas principais associados à função, até porque não era esse o objetivo, é raro em Portugal este tipo de entrevistas, em que os responsáveis pelo futebol falam sobre a sua visão do mesmo e das ideias para os clubes e, nesse sentido, fica essa nota.


Tiago Lenho é mais um promissor dirigente a emergir no panorama nacional, numa carreira que ainda dá os primeiros passos. Uma entrevista esclarecedora, com um discurso assente na realidade e ciente das necessidades do clube e do caminho a seguir.