Artur Jorge assume os Guerreiros



Artur Jorge é o homem que se segue no comando do SC Braga, depois do clube minhoto confirmar esta semana a saída de Carlos Carvalhal. Após duas épocas de grande sucesso, em que se destacam a Taça de Portugal vencida no ano passado e a grande campanha europeia desta temporada, aliada a uma forte aposta na formação, o técnico optou por não aceitar renovar contrato para dar outro rumo à sua carreira.


Com nomes como Ricardo Soares, Ivo Vieira e Bruno Pinheiro a serem apontados ao lugar, António Salvador surpreendeu ao apostar na 'prata da casa', optando por um treinador que já se encontrava dentro de portas, a orientar a equipa B.


Se por um lado é verdade que o presidente do SC Braga já havia adotado esta estratégia no passado em algumas vezes, com treinadores a dar o salto para a equipa principal como Abel Ferreira, Rúben Amorim e Custódio, as opções disponíveis no mercado a abraçar o projeto tornam a decisão não tão expectável. Até porque sempre que António Salvador optou por nomes da formação ou da equipa B, o contexto era diferente, com a época já em andamento, pelo que o fator 'conhecimento interno' assume outra importância.


Seja como for, a decisão é reveladora da estratégia que os guerreiros pretendem seguir no futuro: dar continuidade à aposta na formação. E nesse sentido, Artur Jorge tem um conhecimento da 'matéria prima' e uma identificação com a ideia que outros não têm.


Para analisar o contexto atual do SC Braga no panorama nacional, é importante realçar que nas últimas 8 épocas, em apenas duas os arsenalistas não acabaram em 4º lugar – em 19/20 terminaram em 3º e em 16/17 em 5º. Nas últimas duas temporadas (a contar com esta que terminou), ou seja, com Carvalhal ao comando, os bracarenses terminaram com uma distância pontual superior ou igual a 9 pontos para as equipas mais próximas – isto é, acima e abaixo da tabela classificativa. Ou seja, o clube está completamente fixado – e isolado – como a 4ª equipa em Portugal.


E é com este pensamento que a aposta para o banco recai em alguém da casa. Uma aposta num treinador que já fazia parte da estrutura em detrimento de um nome mais experiente, mais bem cotado e com mais cartas dadas, vai mais ao encontro da continuidade que se deseja dar ao projeto sustentado na aposta na formação, do que propriamente 'fazer mira' aos 'grandes'. Ou seja, a aposta em Artur Jorge assume contornos mais virados para o reforço daquilo que tem vindo a ser feito nos últimos tempos, com a aposta nos jovens com pilar base do projeto, do que exatamente tentar uma aproximação aos 'grandes'. E a justificação é justamente baseada no demonstrado anteriormente: o patamar onde se encontra, sozinho, o SC Braga, está longe do seguinte. E até ser consumada a centralização dos direitos televisivos, que tornará a distribuição das receitas mais equitativa entre os clubes, será difícil remar contra essa maré. Os 'grandes' estão noutro degrau, com orçamentos bem superiores, para os quais a Liga dos Campeões contribui de forma muito significativa.


Obviamente que não é que uma coisa seja incompatível com a outra, mas é certo que são caminhos que exigem decisões e opções distintas. E também não é que as alternativas disponíveis no mercado não fossem capazes de assumir este projeto. Mas decidiu António Salvador repetir uma estratégia que lhe já deu frutos, escolhendo alguém já totalmente enraizado, com um profundo conhecimento da formação do clube e com experiência no trabalho com jovens. O plano está desenhado e Artur Jorge, que está no clube desde 2017, tendo já treinado os sub-15, os sub-19, os sub-23 e, mais recentemente, a equipa secundária, encaixa no perfil desejado.


Certo é que na Pedreira há uma vasta fornada de jovens talentos a aparecer, fruto do grande trabalho desenvolvido na formação, e muitos já contam com minutos na equipa principal (em 2 anos, Carvalhal estreou 17), como Francisco Moura, Roger Fernandes, Bruno Rodrigues, Rodrigo Gomes, Gorby, Berna, Miguel Falé, Schürrle, Leonardo Buta e, já noutro patamar, Vitinha e David Carmo. É com esta base na mente que a equipa minhota prepara o futuro e construirá a sua equipa, até porque Ricardo Horta e Al Musrati têm mercado e estão na calha para sair, de forma a permitir um encaixe financeiro significativo e necessário para as contas do clube.