A reestruturação do futebol do Manchester United

Atualizado: Jul 5



O Manchester United encerrou, finalmente, um processo que começou no verão de 2018. Foi já no passado dia 10 de março que os Red Devils nomearam John Murtough como o novo - e primeiro da história do clube - Diretor de Futebol. Por outro lado, Darren Fletcher aumentará as suas responsabilidades, tendo sido nomeado para o também recém-criado cargo de Diretor Técnico. Embora tenha considerado seriamente nomeações externas (e muito se falou de Antero Henrique, Edwin van der Sar, Ralf Rangnick e Paul Mitchell), o clube acabou por optar por soluções internas, acreditando que estas mudanças são a melhor solução.


Opção Interna


A razão pela qual o United não contratou ninguém para o cargo está relacionada com o facto de que o clube não estava à procura de alguém para liderar a política de contratações, nem ninguém para escolher quem deve orientar a equipa.


Ao passo que nos outros clubes um Diretor de Futebol (ou Diretor Desportivo) tem, à partida, grande influência sobre essas áreas - escolher os jogadores para o plantel e os treinadores - o clube tinha outra visão para o cargo.


Nos Red Devils, a estrutura é diferente. Principalmente, o status do treinador é primordial e a ideia passa por dotar o mesmo de uma autonomia muito grande, com poderes alargados, um pouco à semelhança daquela que Sir Alex Ferguson manteve e tão bons resultados trouxe ao clube, ainda que menos acentuada. A relação de Ole Gunnar Solskjaer para Ed Woodward sempre será direta, ao invés de dividida com alguém. Para a estrutura, este relacionamento é vital.


Assim, quando se tratou de contratar e despedir, a decisão sempre coube ao vice-presidente executivo Woodward (veremos como será depois desta mudança), que continua com a confiança da família Glazer.


Partindo do pressuposto que assim continuará a ser, este foi possivelmente um forte entrave que fez com que alguns nomes eventualmente abordados para assumir o cargo de Diretor de Futebol recusassem uma proposta.


Ou seja, alguém que ingressasse no cargo não iria receber a influência normalmente associada à função, porque o United está eminentemente satisfeito com a sua abordagem colaborativa, que foi construída desde os anos em que Ferguson saiu e levou consigo a sua combinação única de conexões e conhecimento.


Isto é, a ideia é que o Diretor de Futebol complemente o trabalho de Ed Woodward, em vez de suplantar. Um “mecanismo de relatório” em vez de uma “figura de unicórnio”, sugerem as fontes.


As funções de Murtough e Fletcher e o novo Organograma do Futebol


John Murtough começou como cientista desportivo no Everton trabalhando com David Moyes, onde foi nomeado, mais tarde, no Head of Performance. Em 2012, após ter feito parte de uma equipa de sucesso em Goodison Park, deixou o clube para assumir um cargo na Premier League como Head of Elite Performance.


Seguiu-se a mudança para Old Trafford, com Moyes, em 2013. E, embora o seu ingresso nos Red Devils se tenha devido ao escocês, que um ano mais tarde deixou o clube, Murtough acabou por permanecer, após ter deixado sinais muito positivos. Antes de ter sido nomeado Diretor de Futebol do Manchester United, foi o Head of Football Development e recebeu os créditos pelo trabalho realizado nas estruturas de recrutamento e na equipa feminina.


"O John tem sido parte integrante do nosso progresso nestas áreas e o seu profundo conhecimento do desenvolvimento garante que as tradições do clube de levar jovens jogadores da academia à equipa principal continuarão. Esta nova posição é uma evolução natural que aproveita as suas qualidades de liderança e os seus anos de experiência no jogo." - afirmou Ed Woodward, vice-presidente executivo do Manchester United.


Murtough terá a seu cargo a liderança geral das operações e estratégia do futebol e trabalhará em estreita colaboração com Ole Gunnar Solskjaer no que diz respeito ao recrutamento e identificação de jogadores, com o ex-Head of Corporate Affairs, Matt Judge, reportando ao Diretor de Futebol sob o novo cargo de Diretor de Negociações de Futebol, embora mantendo a mesma função.


Judge é o braço direito de Woodward desde a saída do ex-presidente-executivo David Gill em 2013. No processo de negociação de transferências dos Red Devils, este assume o comando da maioria das discussões e, embora Ed Woodward esteja envolvido até certo ponto, não tem um papel ativo nas negociações. Judge é o responsável por todas as negociações do futebol, estejam elas relacionadas com contratos ou transferências.


Por outro lado, Fletcher apoiará Murtough no lado técnico, fazendo uso da sua experiência e conhecimento do jogo, com o objetivo de auxiliar no processo de recrutamento.


O escocês trabalhará também na ligação entre a academia e a equipa principal, concentrando-se numa abordagem a longo prazo para o desenvolvimento de jogadores e equipas. O ex-jogador de 37 anos vai ainda continuar a ajudar Solskjaer nos treinos sempre que necessário.


Murtough estará no mesmo patamar de Solskjaer na hierarquia organizativa do clube, pelo que ambos reportarão diretamente a Ed Woodward.

A correspondente da Goal no Manchester United, Charlotte Duncker, explicou que "do ponto de vista da tomada de decisões, pouco mudará em relação ao que vimos nos últimos anos."

"Solskjaer ainda tem a decisão e vai trabalhar ao lado de Murtough, que esteve envolvido na reformulação do recrutamento na academia e tem já um relacionamento próximo com o treinador da equipa principal."

"Woodward está acima deles, mas não está envolvido nos negócios de transferência do dia-a-dia, enquanto Matt Judge continuará a ser o responsável pelas negociações. Fletcher estará envolvido para 'vender o United' a novas contratações em perspetiva." - finalizou.

O novo organograma do futebol do Manchester United (Tifo Football)

A necessidade de um Diretor Desportivo, segundo Luís Campos


Em 2019, em declarações à Sky Sports Football, o português, que em tempos foi também apontado ao cargo nos ingleses, explicou porque o United precisa (precisava) de um Diretor Desportivo.


"Eu conheço muito bem a situação do Manchester United. Na minha opinião, neste momento, todos os clubes precisam de um Diretor Desportivo. Porquê? Porque o treinador precisa de tempo para pensar qual é a melhor equipa para o próximo jogo, a melhor sessão de treino e também no superego dos jogadores."



Após a saída de Ferguson, em 2013, os Red Devils nunca mais voltaram a atingir o topo. O facto de as decisões relacionadas com o futebol serem tomadas pelo vice-presidente Ed Woodward, explica, em parte, os resultados desde a saída do escocês. Não é uma pessoa qualificada e capaz de tomar decisões de tão elevada importância.


Esse tem vindo a ser um dos grandes erros do clube: as decisões relativas ao futebol serem tomadas por alguém que não é dessa área. O próprio terá de reconhecer que esse não é o seu campo de especialidade, não sendo, assim, a pessoa mais indicada para tomar essas decisões.


Há variadíssimas questões relacionadas com a direção desportiva que têm muito que se lhe diga. A aquisição de van de Beek por 39M, estando o clube mais necessitado e deficitário (quer em termos quantitativos, quer em termos qualitativos) noutras posições, é muito questionável. Todo o atraso na contratação de Bruno Fernandes (ainda por cima a um clube com uma enorme necessidade de vender), que acabou por chegar só em Janeiro, é algo que não pode acontecer a este nível. A contratação de Maguire e os valores nela envolvidos (89M!), é mais um episódio muito difícil de explicar. E por aí em diante… até 2013, em que era Ferguson o líder do projeto.


Durantes estes últimos anos, a gestão do plantel e das contratações tem deixado muito a desejar e feito com que o United marque passo na luta pelo regresso ao patamar onde esteve. Há, de facto, a necessidade de alguém verdadeiramente competente assumir a liderança do futebol. Faz falta alguém que perceba da indústria e do jogo. Que seja capaz de formar plantéis de qualidade e de escolher equipas técnicas competentes. Que construa um projeto sólido e que lidere uma política desportiva coerente e bem estruturada.


Há, neste momento, várias questões para gerir, tais como:


- Vai van de Beek beneficiar de uma pré-época adequada e finalmente florescer no Manchester United?


- Pode também uma pré-época elevar Amad Diallo para outro nível e diminuir a necessidade de contratar outro jogador para a faixa?


- Vai Edinson Cavani permanecer em Old Trafford por mais uma temporada e, em caso afirmativo, em que estado fica a procura por um avançado?


- Permitiria a contratação de um patrão para a defesa uma abordagem mais ambiciosa e criativa no miolo?


- O que acontecerá com Paul Pogba?


- Quem vencerá a luta pela baliza, David de Gea ou Dean Henderson, e o que acontecerá com o que ficar de fora?


Será importante perceber qual será efetivamente o papel de John Murtough. Se vai ter, de facto, poder, se vai ter margem de manobra para pensar o futebol à sua maneira ou se será apenas alguém que de Diretor de Futebol só terá o nome do cargo que ocupa. Será importante perceber se vai ter uma influência forte na escolha dos jogadores e em todas as outras áreas inerentes ao futebol, se terá autonomia, ou se Ed Woodward se vai sobrepor na hora de tomar decisões. É crucial que seja claro o nível de responsabilidade que terá, para que depois possa ser responsabilizado. Até para que, caso a última palavra no futebol continue a pertencer a Woodward, o Diretor de Futebol não seja apenas um refúgio e uma fuga que sirva de explicação/culpabilização caso os resultados não forem os melhores. E é crítico que a última palavra pertença a alguém capaz, para que não se voltem a repetir os erros do passado.