A pior decisão é insistir no erro



O despedimento de um treinador é sempre uma questão muito complexa. A sociedade tem vindo a tornar-se cada vez mais impaciente e hoje pedem-se resultados para amanhã, ignorando-se na maioria das vezes o contexto e desprezando-se as dificuldades notoriamente existentes. O futebol é o momento e quando a bola não entra os adeptos apontam quase sempre ao treinador. É sempre o elo mais fraco e muitas vezes paga pelos erros dos outros.


Na maioria das vezes não há uma análise e reflexão dos resultados, isto é, não é tida em consideração a conjuntura e o porquê de os resultados não corresponderem ao exigido. Aquilo que acontece assemelha-se a uma regra de três simples: quando se ganha está tudo bem, quando se perde está tudo mal e o treinador é o culpado. Sabemos muito bem que não é assim que as coisas funcionam mas que é assim que se procedem.


Existe, assim, uma grande tendência para, quando os resultados não são os melhores, despedir o treinador. Não é que possa, efetivamente, ser o responsável pela situação. Pode. Mas a história já nos ensinou que na maioria das vezes não é, e que, contudo, acaba por ser o cruxificado. Veja-se o exemplo de Ferguson, que esteve em vias de ser despedido do United por maus resultados e que acabou por conquistar 40 (!) troféus em Manchester.


Mas não é sobre este fenómeno que este artigo se trata. É sim de outro bem mais raro mas que também acontece – e que também está mal. Existe, por vezes, um acontecimento totalmente oposto ao anteriormente falado: quase que independentemente de tudo aquilo que aconteça, o treinador permanece.


Como qualquer outra área, o futebol não se resume apenas aos resultados. E é necessário que haja, depois, uma avaliação mais profunda que vá além dos mesmos. Olhar para o processo, para o trabalho que vem sendo desenvolvido e para a evolução da equipa; avaliar a influência do contexto no momento; e perspetivar se o futuro pode ser diferente. Tudo isto de cabeça fria, numa reflexão racional e não emocional. Ou seja, perceber se, efetivamente, o falhanço do alcance dos objetivos se prende com a (falta de) capacidade da equipa técnica. Neste fenómeno, à semelhança do anterior, isso não é feito ou é ignorado e desprezado. Contudo, contrariamente ao outro, é evidente que o culpado é o treinador e, no entanto, este subsiste.


Os casos do Manchester United e do Barcelona são sintomáticos. É notório que Ole Gunnar Solskjær não tem competência para comandar o gigante inglês. Não faltam craques (veja-se o que foi o mercado de verão) e a equipa comete erros básicos e apresenta um nível de jogo paupérrimo, vencendo sobretudo através de rasgos individuais. Os Reds são uma equipa recheada de jogadores que já venceram muito e que auferem grandes salários. Cada vez mais é difícil gerir e motivar um grupo destes com muitos egos. E mais uma vez, está claro que o atual técnico não é capaz de o fazer. E não se perspetiva nada de diferente. Talvez o United acredite que seja possível replicar a fórmula Ferguson, ou não deseje agravar o cemitério de treinadores que tem sido desde a sua saída, mas a permanência do norueguês é o adiar do inevitável. A saída acabará por acontecer brevemente, após uma falha de um objetivo ou outro resultado humilhante.


Quanto ao Barcelona, o mesmo era visível. A saída de Ronald Koeman era apenas uma questão de tempo. É verdade que Leo Messi deixou os 'culés' no verão e que com o astro argentino as coisas seriam, provavelmente, diferentes. E também que a gestão desportiva do clube nos últimos anos foi desastrosa. Mas exigia-se bem mais ao holandês que orientava um conjunto com grandes nomes e com uma das melhores formações do mundo do que o nível de jogo que apresentou (e o modesto 9º lugar que ocupa na liga). Novamente, era claro que o treinador seria incapaz de inverter o momento. E a união e coesão do grupo que nunca conseguiu conquistar também não ajudou.


Em ambos os exemplos, o erro não será (ou foi, no caso do Barcelona) despedir o treinador, mas sim contratá-lo. Na maioria das vezes, são casos onde os treinadores acabam por ser mais vítimas do que culpados, pois não estão preparados para o cargo que ocupam.


Acontece, talvez, por medo que o substituto não seja superior. Talvez por receio de se errar na decisão de despedir. Mas é notório que a permanência do treinador (ou contratação) é (foi) um erro. E a pior decisão é insistir no erro.