A fantástica entrevista de Diogo Boa Alma

Atualizado: Jul 5



Na passada quarta-feira, Diogo Boa Alma esteve no Canal 11 e, em entrevista ao programa "Futebol Total", o Diretor Desportivo do Santa Clara falou de uma forma muito aberta e transparente sobre o projeto do clube açoriano, sempre com um discurso lúcido e assertivo. Um profissional que, certamente, o tempo se encarregará de colocar no nível merecido. A conversa foi extremamente rica e abordou vários temas - como a importância do cargo que exerce, e que tão pouco é valorizado - e, por isso, muito difícil de comprimir. Uma lufada de ar fresco no que ao tema diz respeito em Portugal. Ficam aqui algumas das frases mais marcantes:



- A tentativa da contratação de Al-Musrati no passado


“Al-Musrati é um dos amargos de boca que tenho, não o ter conseguido contratar por duas vezes. A primeira, antes de ele vir para Portugal, quando ainda estava na Líbia. O Vitória de Guimarães colocou-se na corrida e conseguiu levá-lo para a equipa B. Ao vermos que não estava a ser muito utilizado procurámos mais uma vez trazê-lo para os Açores e também não foi possível.”



- O Sonho Europeu existe?


“O sonho europeu existe para todos os que competem, mas temos noção de que o clube tem de dar passos sustentados, passos firmes. Não tem, infelizmente, nem em termos de orçamento, nem em termos de infraestruturas, as condições dos crónicos candidatos aos lugares europeus. É algo que nós queremos caminhar e estamos a reinvestir o dinheiro que vamos conseguindo nas mais-valias – primeiro no saneamento financeiro do clube e, depois, então, queremos dar este passo de construção de um centro de treinos, que é fundamental para nós. O Santa Clara precisa de ter outras condições de trabalho que hoje não tem para poder ambicionar alcançar esses objetivos.”



- A descoberta de Zaidu


“Temos vários informadores, por assim dizer, que nos sugerem jogadores, e eu recebo centenas de jogadores e vou filtrando. O Zaidu foi um amigo que acompanhava o Mirandela na altura, falou-me do jogador, nós pedimos para uma pessoa ir lá avaliar, e depois, mais tarde, fui eu ver um jogo dele, frente ao Vizela, em que jogou a central, curiosamente, uma posição que também desempenha com qualidade. Fez um bom jogo, sem ser uma coisa extraordinária, mas que nós vimos que estava ali, claramente, algo diferente. E ali ficou praticamente tudo acertado.”



- O Santa Clara não é um clube que gaste muito dinheiro em transferências, não investe muito para depois tentar rentabilizar. Como é que é possível, dessa forma, contratar jogadores de qualidade?


“Não investimos muito, pelo contrário, porque nunca contratamos um jogador pagando, à exceção do caso do Thiago Santana. Temos de ser criativos, temos de antecipar, porque nós não é só o não termos a capacidade financeira para a compra do passe, também a nível salarial não temos a capacidade de outros. Temos de ver outro tipo de mercados, fomos buscar 3 jogadores à Líbia, já fomos buscar a El Salvador, ao Panamá, ao Japão, ao Iraque, aos Emirados Árabes Unidos. Olhamos para outros mercados e, depois, estamos atentos a jogadores que estão menos aproveitados.”



- Imagino que, não pagando transferências, a primeira coordenada a despistar é saber quem são os jogadores que acabam contrato. Qual é o seu processo criativo?


“Relativamente à estrutura de recursos humanos, o Santa Clara também tem de crescer. As pessoas não têm noção de que, hoje, o Santa Clara, fora o que é a estrutura normal do futebol – jogadores, treinadores, fisioterapeutas, roupeiros - tem menos de 10 funcionários. O Santa Clara não tem um departamento de Scouting, que é centralizado em mim. Isto é algo que o clube tem de crescer, obrigatoriamente. Sabemos que é um processo que tem de ser feito, o clube quer dar esses tais passos sustentados e ir crescendo.


Não existe apenas a procura de quem está em final de contrato. Há um acompanhamento de vários campeonatos e de inúmeros jogadores. Temos a vantagem de ter já uma rede montada de colaboradores que nos despistam e fazem um pouco a triagem nos outros países, porque não é possível para mim acompanhar todas as ligas ao mesmo tempo, apesar de ver inúmeros jogos.”



- Como chegou ao Morita?


“O Morita é um exemplo engraçado. As pessoas não têm ideia de que eu trouxe o agente dele há mais de um ano aos Açores por causa do jogador. Conheci o agente dele já há algum tempo, em Amesterdão, num fórum do Wyscout. Criamos uma amizade, ele passou-me toda a carteira de atletas que tem, fiz uma triagem e identifiquei dois que seriam bastante interessantes para a nossa realidade, apesar de eu não acreditar que fosse possível qualquer dos dois vir. Como dizia, já há mais de um ano que esteve nos Açores. Este é um processo de namoro que temos de ir fazendo, não tendo a capacidade financeira de outros, e de antecipação, sabendo nós que terminava contrato em dezembro de 2020. E, portanto, ainda em 2019, já esteve nos Açores e já o fui procurando convencer do projeto, mostrando as condições, falando dos exemplos de sucesso que tínhamos tido anteriormente. Há um desejo grande do jogador japonês, felizmente, de vingar na Europa. Porque, a realidade do Morita, para terem noção, ele é bicampeão japonês, ganhou a taça do imperador, capitão de equipa, figurou no melhor onze, internacional japonês – ainda agora recebemos convocatória novamente para, em março, ir à seleção. Terminando contrato, ele tinha, como se costuma dizer, um camião de dinheiro a espera dele, se quisesse permanecer no Japão. E, portanto, felizmente, é também a ambição do atleta e a confiança que tem nas suas capacidades, de querer mostrar-se no futebol europeu e de querer dar este primeiro passo num clube de uma dimensão menor, porque é a sua porta de entrada, porque, felizmente, os tubarões não vão buscar diretamente ao Japão ou é raro fazerem-no, e sobretudo na idade em que ele está.


Estávamos a falar de alguns médios, do Musrati, e de outros, eu direi aqui uma afirmação polémica. Falávamos que o Carvalhal tinha dito que o melhor médio defensivo em Portugal era o Musrati, eu digo aqui uma coisa que será polémica ao dia de hoje, mas eu acho que mais tarde me vão dar razão: o Morita é o melhor médio a jogar em Portugal, porque é o mais completo. O Morita tem a capacidade de fazer a posição 6, tem uma grande capacidade de desarme, tem jogo aéreo - apesar de não ser muito alto, tem uma excelente impulsão, tem a 1ª fase de construção – quando se utiliza o pivot defensivo para fazer a 1 fase de construção, mas tem também a capacidade de jogar num duplo pivot, de fazer a posição 8, de ter chegada na área – fez um golo logo na estreia.”



- Estão ali 10 milhões garantidos?


“Eu direi que isso será um valor mínimo para ele, espero eu, porque tem todas as condições, realmente, para dar o salto, mas é um jogador diferenciado, e posso também dizer que é um excelente profissional. É extraordinária a capacidade de trabalho que ele tem, a personalidade que tem, tenta adaptar-se muito bem, brinca muitos com os colegas – apesar de ter a dificuldade de comunicação. Tem uma personalidade fantástica e foi alguém que chegou, viu e venceu.”



- Será difícil segurá-lo já no final desta época?


“Gostaria que assim não fosse, mas nós também, como dizia, o nosso projeto passa pela valorização de ativos, queremos sempre ajudar os nossos profissionais a dar o salto e obviamente que, se as pessoas tiverem atentas, eu não tenho dúvida que será muito difícil, porque ele tem qualidade para jogar nos maiores palcos europeus.”



- Um dos aspetos que nós sabemos que é preponderante e determinante para o sucesso desportivo e para a rentabilidade financeira, que qualquer SAD tem que assumir, tem a ver com a estabilidade. Este é um clube estável no presente e vai sê-lo no futuro?


“Sim, é assim que esperamos. Tenho que deixar uma palavra ao meu presidente, Rui Cordeiro, que tem uma grande vantagem, na minha opinião, sobre muitos presidentes no futebol português, que é o delegar e o dar confiança nas pessoas. Ainda este fim-de-semana falava com o Carlos Carneiro, do Paços de Ferreira, antes do jogo, e dizíamos que é raro em Portugal a nossa função, a função do Diretor Desportivo. São poucos os clubes que o têm e muito menos os que têm dando liberdade. Penso que é um erro. Sou sincero, acho que é uma função fundamental. Fui muito claro com o meu presidente, eu sou amigo de faculdade dele, portanto temos uma relação pessoal muito boa, mas, à parte disso, disse-lhe sempre que aceitava ir para os Açores, mas que tinha uma condição: não haver interferência no futebol. Tenho o privilégio de ter um presidente que não interfere minimamente no futebol. Confia, delega, cobra.”



- Como é o processo de decisão?


“O processo de decisão está centralizado em mim. O presidente confia plenamente, ponho-o a par de tudo, logicamente, ele sabe qualquer jogador que está a ser contratado, sabe também a decisão relativamente aos treinadores, falo com ele diariamente sobre todos os aspetos, mas não interfere minimamente. Há uma responsabilidade, que eu lhe digo que é o meu entendimento relativamente à organização de um clube de futebol. Tem que haver um responsável único, e esse sou eu, e no final de cada época temos que fazer o balanço. Está satisfeito, não esta satisfeito? Independentemente da nossa relação pessoal e da nossa amizade, é cobrar os resultados que são exigidos e o planeamento que era feito inicialmente. Mas tem que ser centralizado numa pessoa, e tem que ser centralizado, na minha opinião, numa pessoa com competência para o fazer e não, como acontece muitas vezes no futebol português, em que são os presidentes, que não são da área, que depois acabam por interferir.



- Qual é o espaço que deixam ao treinador neste processo de aquisições?


“Há situações em que nos contratamos ainda muito antes da época terminar e muito antes de nós sabermos quem vai ser o treinador, como o exemplo do Zaidu, ou de outros atletas que já tínhamos contratado para este ano - tínhamos contratado 3-4 jogadores ainda antes de entrar o mister Daniel Ramos. Há um projeto do clube, que é fundamental. Posso dizer que não entra nenhum jogador no Santa Clara sem a minha aprovação e sem eu ver vários jogos do atleta, independentemente de ser sugerido pelo treinador. Agora, isso também existe. Existe, depois, a partir do momento em que alguém assume, o mister Daniel Ramos neste caso, identificamos as lacunas, quais são as posições que ainda precisamos de reforçar, e existe também, da parte dele, sugestões de nomes, jogadores que ele próprio tem referenciados. Nós passamos também os atletas que já tínhamos para aquela posição como opções prioritárias, para nós definirmos em conjunto qual a opção número 1 a tentar contratar. Mas há sempre o projeto do clube, porque temos esta cultura própria. É claro que, quando identificamos um treinador, também tem de ser um treinador identificado com este tipo de projeto. Alguém que sabe que o Santa Clara não tem os recursos de outros, que sabe que o Santa Clara tem de contratar jogadores desconhecidos, que sabe que tem de valorizar ativos acima de nós ficarmos um ou outro lugar acima na classificação. O objetivo prioritário, o objetivo número 1: manutenção, objetivo número 2: valorização de ativos.



- Terá sido por isso, por essa sua premissa que mantém sempre em cima da mesa, ou seja, o Diretor Desportivo tem de ter poder, não está apenas para receber ordens e depois executar, que não saiu do Santa Clara?


“Sim, é um dos motivos. Eu sei que é difícil, vai ser muito complicado, sobretudo em Portugal, encontrar outro projeto em que me seja dada a liberdade que tenho no Santa Clara para pensar todo o futebol da maneira que eu entendo que deve ser pensado. E a responsabilidade não vai apenas na escolha dos jogadores, na escolha dos treinadores, vai na própria estrutura que está à volta do futebol - falávamos à pouco dos fisioterapeutas, dos roupeiros. O Marco Santos que eu trouxe comigo do Vitória de Setúbal para team manager, que é alguém que tenho uma confiança total e é um braço direito fantástico. O Clemente, que terminou como jogador e que nós puxámos para diretor, para trabalhar ao pé de mim, e que hoje é uma pessoa fundamental no clube. Dá todo o apoio aos jogadores, sobretudo aos novos que chegam – e quando vemos a adaptação rápida deles, ele é uma das chaves desse segredo, porque está com eles diariamente e acompanha-os e facilita a vida deles extracampo de uma maneira extraordinária. E, portanto, penso a estrutura também, como é que deve ser o seu funcionamento e quem são as pessoas certas.



- Mas já podia ter saído do Santa Clara?


“Existiram já várias situações em que podia ter saído. Estou muito feliz nos Açores, estou satisfeito, tenho a minha ambição de dar também o salto, lutar por outros objetivos, de estar em outros clubes, no estrangeiro ou em Portugal, mas sempre com uma premissa que é esta: ter responsabilidade total. Ser cobrado depois por ela, mas ter a liberdade para fazer o que eu acredito.”




- Foi difícil manter o Fábio Cardoso esta temporada? Não é um jogador que, face ao rendimento que tem, tenha tido muitos convites?


“O Fábio Cardoso foi, em primeiro lugar, um jogador extremamente difícil de trazer para os Açores, porque é realmente um jogador com uma qualidade extraordinária. Nós assinamos um contrato extenso, mas a minha ideia é que ele dificilmente faria mais de uma época no Santa Clara, sou muito sincero, e vai na terceira. Eu acho que é um daqueles exemplos que as pessoas não estão a dar a devida atenção, porque tem qualidade, quer futebolística, quer humana, para estar já num clube de outra dimensão, e que já devia ter dado esse salto.



- O Santa Clara tem, na formação, ativos de valor que se possa, depois, explorar e vender mais tarde?

“É uma das pechas que o clube tem. Estou há 5 anos no Santa Clara e encontrámos o clube deficitário em muitas situações e começámos um bocadinho pelo telhado. Começámos pela primeira equipa para criar também condições financeiras para se poder investir e vir a fazer o edifico ao contrário do que é suposto, mas vir a ter capacidade financeira para ir investindo depois, também, nas camadas jovens. Tem uma limitação muito grande, desde logo dos campeonatos, porque as equipas de formação do Santa Clara não competem a nível nacional. […] Isso não permite que eles ao longo do ano tenham, efetivamente, competição de qualidade. […] Já estamos em conversações com o Governo, queremos criar as nossas condições de treino, precisávamos do apoio do Governo nesse sentido, para que nós pudéssemos criar uma equipa de sub-23, para irmos fazendo este processo do telhado para baixo. Criámos essa equipa, depois podemos investir nos sub-19, sub-17, sub-15, … […] Temos vindo a colocar jogadores no continente para que possam crescer e voltar mais preparados.”



- Lembrando um dos primeiros grandes negócios do Santa Clara - o Fernando Andrade. Quando se tem o interesse de 2 grandes, como se gere essa situação?


“O Fernando Andrade é outro que tentámos mais de um ano. Ele veio para Portugal para o Oriental e faz uma grande época. Tentei contratá-lo e disse que não queria ficar em Portugal. E depois, mais tarde, já quase no fecho do mercado assina pelo Penafiel, e eu até fiquei triste com ele na altura, por isso. Insisti novamente no ano seguinte, estraguei as férias – quase - à minha mulher, porque passei as férias inteiras a chateá-lo. Ele não queria mesmo ficar em Portugal e consegui convencê-lo a vir para o Santa Clara. E depois é curioso porque o Fernando Andrade é um dos atletas que eu ainda hoje falo diariamente com ele. […] Tenho uma relação fantástica com ele e ele foi extraordinário com o Santa Clara porque tinha, quando subimos à 1ª liga, propostas de vários clubes, que sabiam que ele entrava no último ano de contrato, que queriam assinar pré-contrato com ele, e eu disse-lhe: subindo à primeira liga, temos que renovar já, porque eu sabia que ia aparecer na montra e facilmente iria aparecer o assédio de muitos mais. E, apesar de ter os seus agentes de longa data a pressioná-lo para assinar pré-contrato noutro lado, ele deu a sua palavra e assinou com o Santa Clara contra a vontade de quem o representava na altura. E eu disse-lhe sempre: eu vou-te ajudar e tu vais dar um salto maior do que esses clubes que hoje te apresentam. E, quando surgiu o interesse de mais do que um clube na contratação dele, eu disse ao Fernando: tu foste sério connosco, portanto a escolha é tua. Eu não vou discutir.”



- Como é o processo de escolha de treinadores?


Os treinadores nós também olhamos, acima de tudo, para o perfil, se podem enquadrar na ideia do clube, no projeto do clube. O mister Daniel Ramos, por exemplo, passou no Santa Clara ainda comigo também lá na 2 liga. Fizemos um arranque extraordinário de campeonato, igualámos a melhor marca de sempre de um arranque na segunda liga, que era pertença do Campomaiorense, com 7 vitórias e 1 empate nas primeiras 8 jornadas. Infelizmente, o presidente Carlos Pereira [Marítimo] teve a inteligência de o ir contratar na altura e tirou-o, mas ficou sempre aquele sentimento e uma identificação grande. Há muitas coisas que nós temos em conta. Obviamente, o desempenho das suas equipas, a ideia de jogo, os resultados – que também têm interferência, a comunicação – a forma de comunicar, a coragem que têm ou não de lançar jogadores jovens, a coragem que têm de lançar jogadores desconhecidos – porque vai ser esse também o papel dele no Santa Clara e depois, obviamente, a conjugação de todos estes fatores e falando com pessoas que trabalham com eles. Falo primeiro com quem trabalha com eles. E falo, até, com jogadores que não jogam. É uma das formas de nós sabermos como é o trabalho do treinador - é falar com quem não joga. Porque quem não joga pode ter proporcionalidade só à sua azia e dizer sempre mal do treinador, porque não joga, ou pode fazer uma avaliação do trabalho do técnico, independentemente de ser ou não utlizado. E é sempre melhor falar com estes do que com aqueles que são titulares todos os jogos. E também falar, obviamente, com os meus colegas que estão noutros clubes, com outras pessoas do staff que ali estão e depois, sim, chegar ao contacto direto com eles, apresentar-lhe o nosso projeto.



- Teve pena do João Henriques não continuar?


“Ele assinou por um ano. Quando o Santa Clara o foi buscar, lá está, não foi atrás dos resultados – tinha acabado de descer com o Paços de Ferreira, mas identificámos ali alguém com um perfil que podia ser muito interessante. Sabíamos a ideia de jogo que tinha. Eu tinha o defrontado no Leixões e via a qualidade que o Leixões apresentava. Falámos com muitas pessoas que tinham trabalhado com ele e também passaram excelentes referências, quer humanas, quer em termos técnicos, e apostámos nele naquela altura, para um ano. Nós chegamos ali a uma altura em novembro, penso eu, que tínhamos 4 derrotas consecutivas. Perdemos em casa com o Belenenses e eu disse ao presidente: vamos renovar com o mister - e foi nesse dia que renovámos, numa altura em que estávamos mal classificados, estávamos a descer depois de um bom início. Mas eu sabia que o trabalho estava a ser bem desenvolvido, estava a ser bem feito e a dar os seus frutos. Por algum motivo a bola às vezes bate na trave e não entra, mas iria, inevitavelmente, dar os seus frutos e nesse ano conseguimos o 10º lugar, melhor classificação do clube até então. Conseguimos no 2º ano também fazer um bom projeto e superar ainda as marcas do ano anterior. Também tivemos uma fase negativa, curiosamente também ali em novembro-dezembro, dois meses em que não ganhámos qualquer jogo, tivemos várias derrotas na liga e não foi por isso que abalou a confiança no mister. Mantivemo-la sempre até final e definimos, muito calmamente, entre uns e outros, que para nós era proveitoso ter um novo ciclo. Dois anos era um ciclo que nós entediamos que era o certo e que era preciso também uma pessoa com renovadas ambições, porque os objetivos do clube seriam os mesmos, as condições que o clube poderia oferecer seriam as mesmas e é preciso, às vezes, sangue novo também para poder vir com a mesma ambição, porque repetirmos a mesma coisa várias vezes não é fácil. E, portanto, da parte do clube haveria este entendimento e da parte do mister também. Nós sabíamos que ele tinha condições para ir para outros patamares e tinha essa ambição, e nós queríamos que ele fosse.